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Lançamento do Ecoforte em Uauá marca nova etapa para as redes de agroecologia e ampliação da produção sustentável no Semiárido 

Apoiar redes de agroecologia e estruturar sistemas produtivos sustentáveis para gerar renda e segurança alimentar são os pilares que sustentam o ECOFORTE – Programa de Fortalecimento e Ampliação das Redes de Agroecologia, Extrativismo e Produção Orgânica. Lançado oficialmente hoje (29), em Uauá, na região norte da Bahia, o programa marca uma etapa decisiva para o Semiárido, reunindo agricultores/as, instituições públicas e organizações da sociedade civil. 

O encontro celebrou o início de quatro projetos estratégicos que fortalecem as redes territoriais produtivas do Semiárido baiano e pernambucano, sendo eles: Rede Central da Caatinga- iniciativa de estruturação executada pelo Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA); Rede Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERCUC)- fortalecimento desenvolvido pela própria Cooperativa; Rede de Agroecologia do Baixo Sul e Vale do Jiquiriçá- ação conduzida pelo  Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (SASOP); e a Rede Araripe- estruturação e fortalecimento sob execução da ONG Caatinga.

Mais do que um evento formal, o encontro celebrou uma trajetória de resistência histórica. O coordenador institucional do Irpaa, Clérison Belém, enfatizou: “Aqui hoje é um momento histórico, nós não estamos só lançando um projeto, nós estamos reafirmando um projeto de sociedade que a gente vem construindo desde 1990, com a divulgação da Convivência com o Semiárido”. Para ele, a eficácia da política pública é inegociável. “Nós estamos aqui também para reafirmar o fazer bem feito, não adianta ter uma política e ela não chegar no campo como deveria, como o povo merece. Então, é um compromisso das organizações fazer bem feito para que isso se multiplique e o estado fomente muito mais políticas”. 

Essa busca pelo bom desempenho na execução dialoga com os parceiros financiadores, que enxergam na agroecologia um modelo econômico viável e necessário. A gerente de projetos do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), Raquel Zanon, ressaltou que a proposta dialoga diretamente com as diretrizes da instituição. “É uma atuação que está muito em linha com as diretrizes no banco, de produção sustentável, de inclusão da agricultura familiar, das práticas agroecológicas. E a gente tem um compromisso muito grande de ter bons resultados e, depois, seguir galgando mais recursos e apoios para continuar contribuindo com outras ações no futuro”. 

A mudança estrutural proposta pelo Ecoforte vai além do campo e atinge a mesa do consumidor, como explica a secretária executiva da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO), Patrícia Tavares: “As redes Ecoforte transformam as trajetórias dos sistemas alimentares dos territórios, o que significa isso, que a gente muda a lógica da produção ao consumo dos alimentos”. 

Essa transformação ganha força quando se observa o impacto real nas comunidades, ponto destacado por Gilson Lima, diretor e presidente em exercício da Fundação Banco do Brasil. “A gente percebe que são projetos que hoje tem vida, tem enraizamento na comunidade, na sociedade, porque deram frutos que são perenes e fizeram diferença na vida das pessoas. É isso que a gente deseja quando a gente desenha, programa e modela esse tipo de projeto”. 

A força coletiva, motor dessa engrenagem, foi sintetizada pela representante da Secretaria Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sesan/MDS), Camila Carneiro, através de uma reflexão sobre a união de esforços. “Algumas das palavras mais mencionadas aqui foi articulação, integração, modo de vida coletivo. Isso me lembra um provérbio de origem africana, que fala: ‘Se você quiser ir mais rápido, vá sozinho, mas se você quiser ir mais longe, vá junto’”. 

Essa integração foi simbolizada pela entrega de cisternas do programa da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seades) da Bahia, uma conquista celebrada por agricultores como Cosme Silva dos Santos, da comunidade Beldroega, em Uauá. “Receber a cisterna de 16 mil litros foi um prazer imenso, a gente fica muito feliz. Só quem sabe a necessidade que tem é a gente agricultor”. 

O Coordenador Geral do Bahia Sem Fome, Tiago Pereira, participou do momento representando o governador Jerônimo Rodrigues. Na oportunidade, ele pontuou a convergência das políticas públicas de combate à fome com a estruturação produtiva da região:

“A gente sabe dos investimentos do governo do estado na agroindústria, qualificação profissional, assistência técnica, inclusão produtiva, acesso à água. Só no Bahia Sem Fome, nós temos recordes de investimento na chamada de ATER Bahia Sem Fome, que tem fomento na inclusão produtiva. Tudo isso converge para que a gente tenha uma região melhor de se viver. Um sertão produtivo, digno e decente”. 

Ao concluir, o coordenador salientou a importância da escuta ativa e da participação popular na condução do programa: “Nessa construção, o protagonismo da sociedade civil nos dá régua e compasso para que a gente nunca perca de vista os pés no chão no processo de formulação e implementação de política pública”.

Ao consolidar o Ecoforte, fica evidente que a agroecologia defendida pelo projeto não é apenas uma técnica agrícola, mas um ato político e social. A retomada dessas políticas públicas é, acima de tudo, o resultado de um governo mais sensível e atento às demandas dos povos e da persistência de redes e cooperativas que se mantiveram firmes mesmo em cenários de escassez de governos anteriores, provando que o desenvolvimento real se constrói através do diálogo e do fortalecimento de quem vive e produz na terra. 

Programa Ecoforte

Com um investimento de R$ 100 milhões, o Programa Ecoforte é viabilizado por meio de uma parceria estratégica entre o BNDES e a Fundação Banco do Brasil, contando com o suporte transversal de diversos ministérios do Governo Federal. Essa união de esforços visa dar escala às redes de agroecologia, garantindo que o suporte financeiro se transforme em impacto social e ambiental. 

Segundo Raquel Zanon, essa atuação reflete o foco em resultados concretos e na perenidade das ações: “É uma iniciativa em total sintonia com nossas diretrizes de produção sustentável e inclusão da agricultura familiar. Nosso compromisso é consolidar esses bons resultados para, no futuro, alavancar ainda mais recursos e ampliar o apoio às redes”.

Monitoramento e Avaliação: O Projeto Mapear

Para garantir que os investimentos se traduzam em transformação real, o Ecoforte conta com o “Projeto Mapear”, uma iniciativa de monitoramento e avaliação executada pela AP1MC/ASA com o apoio da Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Longe de ser um processo meramente burocrático, Patrícia Tavares define a essência dessa estratégia: “Não é um monitoramento estático, é um monitoramento vivo. Vamos realizar um acompanhamento desde o início, promovendo também ações de intercâmbio entre as redes”.

O objetivo central é potencializar o impacto do programa e aprimorar as políticas públicas a partir da vivência de quem está na ponta. “Isso vai contribuir para que possamos avaliar outras políticas nos territórios, aprimorando-as a partir da escuta cuidadosa com quem de fato as acessa”, completa Patrícia. Assim, o Mapear fortalece a participação ativa da sociedade civil, assegurando que cada ação seja mais eficiente, transparente e conectada com a realidade do campo.

Texto: Lorena Simas | Irpaa

Fotos: Danilo Souza | Irpaa; Priscilla Souza | Coopercuc e Thassio Ramos | Bahia Sem Fome